Populismo às Avessas

Aqui não haverá exatamente uma crítica (pois já não creio no poder do "debate público") e sim um lamento. O qual se refere ao fracasso velado da Lei Rouanet. Que a princípio deveria favorecer a democratização de cultura e educação no país. Buscando o acesso universal as diversas formas de expressão. Porém, o que vemos é mais um instrumento pouco transparente - cuja aplicação não vai muito além dos tradicionais jogos de interesses.
Tal lei configuraria um estímulo para a produção cultura no Brasil, já que só as bilheterias não são capazes de cobrir os custos destes eventos, mas seu impacto é diametralmente oposto. A lei concentra recursos públicos nas mãos de grandes produtores, especialmente nas metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, se convertendo então numa espécie de subsídios àqueles que já dispõe de acesso as vias de financiamento.
Ou seja, uma companhia de teatro itinerante da região nordeste dificilmente verá a cor deste dinheiro. Mas os famosos atores da televisão que já dispunham das verbas publicitárias de grandes empresas para seus projetos, gozarão de maiores facilidades, enquanto tais empresas serão ressarcidas indiretamente com dinheiro público por meio de abatimentos no seu imposto devido. Na prática pode-se dizer que é verba pública convertida em verba de merchandising.
A coisa toda fica mais explícita quando se trata de filmes. Muitos diretores e/ou produtores captam recursos junto as empresas e realizam filmes ora de qualidade "duvidosa" (segundo os objetivos e parâmetros da própria lei), ora de maneira "obscura" (alguns estão sendo feitos a quase uma década e, ainda, estão sem previsão de lançamento).
A Lei Rouanet inverteu os papéis no mundo da cultura. Atores e equipes de criação deixaram de ser protagonistas, sendo substituídos por "promotores de eventos". Nessa lógica ganha-se mais com o fracasso do que com o sucesso - afinal, produzir "muitos" gera mais captação que produzir "bons". Assim, a produção cultural no Brasil caminha longe de qualquer critério que preze a qualidade, a diversidade regional ou, menos ainda, algum valor artístico. Num caminho que começa na fome do lucro e termina numa simples prestação de contas para o "leão".

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